Analistas de política internacional avaliaram que o isolamento diplomático da Venezuela ao longo dos últimos anos contribuiu para o agravamento da crise no país e limitou a capacidade de interlocução do Brasil diante do atual cenário de instabilidade na região. Em entrevistas e debates recentes, eles apontam falhas na estratégia adotada por governos brasileiros e alertam para os impactos da escalada de tensões liderada pelos Estados Unidos.
“O isolamento não resolveu o problema e ainda forneceu combustível para a crise atual”, afirma Regiane Bressan, da Unifesp e integrante do Observatório de Geopolítica. Ela ressalta ainda que a Venezuela sempre foi e continuará sendo um país estratégico para o Brasil, uma vez que compartilhamos uma extensa fronteira.
Cautela
Gilberto Maringoni, professor da UFABC, afirmou que o Brasil tende a adotar uma posição cautelosa diante do conflito, defendendo formalmente a soberania venezuelana, mas evitando apontar diretamente responsabilidades ou condenar abertamente a captura do presidente Nicolás Maduro por forças norte-americanas.
Em sua avaliação, essa postura preserva relações diplomáticas, mas limita a capacidade do país de exercer liderança regional.
BRICS
Questionado sobre se a situação seria diferente caso a Venezuela integrasse o BRICS, Maringoni acredita que a adesão não teria efeitos decisivos no campo militar, já que o bloco não funciona como uma aliança formal. No entanto, poderia ampliar articulações políticas e econômicas, reduzindo o isolamento internacional do país sul-americano.
Ele também avaliou como tímida a reação de potências como China e Rússia e classificaram como “vergonhosa” a postura da União Europeia, que adotou um discurso considerado morno e pouco efetivo diante da gravidade dos acontecimentos.
ONU
Parte das críticas do professor se concentrou ainda em declarações de autoridades norte-americanas sobre o julgamento de Maduro nos Estados Unidos. Para ele, afirmar previamente que o ex-presidente venezuelano conhecerá a “ira da Justiça” compromete o princípio da imparcialidade judicial e sinaliza uma instrumentalização política das instituições.
No campo multilateral, Maringoni apontou o enfraquecimento da Organização das Nações Unidas (ONU), destacando que o Conselho de Segurança permanece paralisado pelo poder de veto das grandes potências. Isso porque o episódio reforça a percepção de que o sistema internacional opera cada vez mais sob a lógica da força, e não do direito.
Alerta
O professor ressaltou ainda que a ação dos Estados Unidos contra a Venezuela acende um sinal de alerta para toda a América Latina, incluindo o Brasil. Embora descarte uma intervenção militar direta em outros países, ele apontam o risco de pressões econômicas, sanções e embargos como instrumentos recorrentes de coerção.
“Não existe direito internacional, existe a lei do mais forte. O Trump prova isso. O Trump mostra que o que está acontecendo é isso. É uma ação brutal, que coloca em alerta todos os países da América Latina, todos, o Brasil incluído.”
Ao final, Maringoni chamou a atenção para o avanço da extrema direita em diversas regiões do mundo e o enfraquecimento das regras multilaterais criam um ambiente internacional mais instável, exigindo cautela e articulação diplomática ativa por parte do Brasil.
Nenhum comentário:
Postar um comentário